Encontro em São Bernardo do Campo – 07/10/17

[Relato Barcamp, por Ilka Santi]

 

E o 1° Barcamp ABC foi assim…

 

Primeiro veio a novidade, que criou a vontade e dali nasceu a ideia, mas ninguém ainda sabia muito bem como fazer. E foi assim que Andréa Massula, insistindo que havia muita coisa boa por vir, convenceu mais três malucos tradutores a acompanhá-la – Ilka Santi, Camila Elias e Danilo Nogueira. E ‘bora’ chamar outros tradutores a sair da toca para conversar, trocar ideias, revigorar. A Livraria Psico Cultural, em Rudge Ramos, nos acolheu gentilmente e sem custo algum, no dia 7 de outubro. Só faltava o show para tudo dar certo. E assim foi o 1° Barcamp ABC.

Show time!

Às dez horas, começam a chegar. Primeiro um cafezinho para esquentar os ânimos, um bom papo para colocar todos em prontidão, o bate-bola um a um para sair das small talks e pôr em dia interesses comuns.

Em um primeiro momento, a fala de nossa conselheira de barcamps, Sheila Gomes, que gentilmente pulou da cama na fria Curitiba para dar as boas-vindas aos novos “barcampeiros” do ABC. A proposta de encontros horizontais já é uma constante na vida de Sheila, a qual se divide entre as traduções para viver (o que todos fazemos); a organização dos barcamps (que não são moleza, não) e o trabalho nos sites Multitude e Identidade.pro, de informação profissional, fácil e grátis, para tradutores.

Os dezesseis participantes, dispostos em roda, se apresentaram e contaram como chegaram à tradução, por que e como. Um pouco de cada história parecia lembrar a da gente. “Migrantes” de outras áreas de trabalho, de diferentes formações – Administração, Hotelaria, Secretariado, Jornalismo – e de vez em quando também o pessoal de Letras e Tradução, completavam o cenário de um grupo profissional, em que poucos tinham vindo diretamente para a tradução, mas acabaram por ancorar-se nela.

A fala de Danilo Nogueira consolidou muito do que vínhamos ensaiando nas conversas paralelas: sua história de vida até ser tradutor, passando por professor de inglês, coordenador pedagógico e dono de escola de idiomas, é um testemunho do que é e ainda às vezes é o “ser tradutor”. O professor que foi chamado a um serviço externo em uma consultoria viu ali um nicho que precisava de profissionais. Dali seguiu para uma editora e depois para a vida profissional autônoma. Sempre com muito estudo à parte, cuidadoso, cauteloso, autodidata, buscando nas fontes das áreas traduzidas o estilo a explorar, a terminologia a usar, o gênero textual a trabalhar.

Isso mostrou que a necessidade – seja dos outros, pelo serviço, seja nossa, pela parte financeira – é a força motriz de alguns chegarem até a profissão. A especialidade nos escolhe pelas oportunidades que se abrem para nós e que abraçamos, nem sempre as que sonhamos, mas quase sempre a que fazemos melhor, exercitada pela prática, aberta pela necessidade de uma época, alimentada por um mercado, que por vezes muda.

Quem está na lida da profissão sabe que o não-planejamento e a surpresa fazem parte do nosso dia-a-dia e que é preciso jogo de cintura para dar conta de tanta novidade. Quando digo “não planejamento”, entendam impossibilidade de se prever muitas das variáveis em jogo. Preparação sempre precisa existir, pesquisa, idem. E muita! Quantos já tiveram a missão de traduzir produtos inventados ontem, com funcionalidades que nem imaginamos? Alguém? E há que ser criativo para lidar com tudo isso.

Danilo salientou o efeito de se ler bastante para poder traduzir, consultar materiais da área para entender, estudar para entrar com personalidade (mas não sem risco) no estilo e no linguajar. Entender a cultura e os hábitos do cliente fazem parte do nosso métier, o que é estável e o que muda de região para região. Por exemplo, explicar o ICMS para americanos do norte dos Estados Unidos pode ser diferente de fazê-lo para americanos do sul dos Estados Unidos. Nem todas as adaptações de tradução serão claras para todos.

Percorrendo a carreira, em uma fase mais estabilizada, o tema ética e preços não poderia deixar de ser mencionado. Danilo Nogueira foi questionado se já havia recusado trabalhos e, em caso positivo, o que o tinha levado a isso. Para a recusa, sim, às vezes é necessário. Em outras ocasiões, o preço pode ser um impeditivo por si mesmo, pois considerando que temos um valor que carrega a pesquisa a ser feita, quanto maior a pesquisa para garantir a qualidade, mais tempo; quanto mais tempo, mais investimento. O valor por hora sobe em nome da qualidade que se deseja manter em um material com o qual somos menos familiarizados. Mas, atenção, não menos cuidadosos! E será que o cliente quer pagar por isso, que é na verdade a nossa curva de aprendizagem? Nem sempre. Há outros colegas cobrindo outras áreas nas quais não somos tão felizes. Pode ser mais prático trabalhar com eles. E mais honesto, no nosso caso, dizer “não”.

Outra questão ética discutida foi a ideologia no processo de tradução, bem explicada com exemplos, relatos e dilemas do traduzir/não traduzir. A ética de um tradutor ao recusar ou não um trabalho, segundo Danilo Nogueira, não está ligada ao conteúdo a ser traduzido propriamente dito, mas ao cliente que o solicita e ao propósito do trabalho. Não se trata do assunto, das palavras ali veiculadas, às vezes de baixo calão, mas do assumir-se como sujeito coautor de um discurso. Alguém deu luz a elas, mas o tradutor ajudou a recriá-las, a dar-lhes vida em outra cultura. A que causa servem? Que grupos beneficiam? Que tantos outros deixam para trás ou mesmo massacram? Ser tradutor é um ato político e a cada dia entendemos mais sobre o nosso exercício de poder, que deve ser feito com muito amor e honestidade.

Após conversas tão nossas e envolventes, risadas à parte, relatos de sinucas nas quais entramos e temos de sair, conversas de como a tecnologia nos ajuda, um delicioso almoço para quem quis prolongar o papo. E lá fomos até depois das 15h. Em breve, o próximo barcamp, que quer unir mais carinhas dos coelhos da toca do ABC. Não deixe de participar.

Agradecimentos calorosos à Livraria Psico Cultural, por nos ceder o ambiente agradável para o evento, e a Thiago Ramires, que fotografou a todos e gentilmente nos deu suporte técnico.

And the show must go on.

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